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Um olhar no passado: História dos Crestani

1 – Hipótese sobre a Origem dos “Crestani”:
              Os Crestani procedem da Grécia, mas precisamente, de Krestena, antiga vila próxima a Olímpia, ocupada pelos venezianos entre os anos de 1400 e 1600.
              Os Crestani, em 1492 (ano da descoberta da América), faziam parte do Senado da República de Veneza.
              Junto a Biblioteca Cívica de Bassano del Grapa encontrei o brasão da família Crestani que mostra um leão subindo uma árvore de loro envolta por uma videira; no alto três estrelas; e na parte inferior, escrito “Família Crestani”. Sua confecção data de 1589.
              Em 1600, três irmãos Crestani se estabeleceram no primeiro vale após Rondinella (Vale dos Crestani), na estrada que leva a Bassano. Em Tortina “a mais bela vista sobre o Veneto” construíram duas magníficas casas “estilo veneziano” (agora bens culturais que se constituem em documentos de história e arte): Casa Tol-Pele e Casa Pretora.
              Na Igreja Paroquial de Fontanelle, existe uma lápide sepulcral dos irmãos Marco e Bartolomeo Crestani, doadores do terreno sob o qual foi construído o templo, isto no ano de 1768.
Giordano Crestani, Itália.

2 - Histórico de Giovanni e Giovanna Crestani:
              Giovanni Crestani nasceu em 10 de novembro de 1864, em Fontanelle de Conco, província de Padova na Itália; filho de Pietro e Ângela Crestani. Ela, Giovanna Maria Vardanega nasceu em 18 de setembro de 1865, em Cavaso, província de Treviso na Itália; filha de Luigi Vardanega e Maddalena Rossetto Vardanega.
              Como milhares de outras famílias os jovens “Giovanni e Giovanna” junto com seus familiares vieram para o Brasil e o adotaram como sua nova pátria. Chegaram no final do século XIX (entre 1875 e 1880) e se estabeleceram em Bento Gonçalves que na época pertencia a Caxias do Sul. Lá se casaram no dia 28 de abril de 1883, ela com 17 anos e ele com 18 anos de idade. A cerimônia foi realizada na paróquia de Santo Antônio, que pertencia à diocese de Caxias do Sul. Dessa união vieram 14 filhos:
- Pedro (14 filhos);
- Antonio Luis (8 filhos);
- Marcelo (16 filhos);
- Albino (7 filhos);
- José (Bepi) (7 filhos);
- João (Joanin) (10 filhos);
- Vitor (Vitório) (6 filhos);
- Faustino (7 filhos);
- Ângela (Angelina) (10 filhos);
- Amábile (10 filhos);
- Catarina (Catina) (9 filhos);
- Matilde (11 filhos);
- Aurélia (7 filhos);
- Edvirgens (16 filhos).
              De Bento Gonçalves Giovanni e Giovanna, junto com alguns de seus filhos já casados, deslocaram-se para a Linha Etelvina em Tapera.
              Na época, grande parte das terras era coberta de matas virgens, com imensas florestas de araucária e isso era o que de mais importante podia haver em termos materiais e foi assim que a família de Giovanni e Giovanna Crestani iniciaram sua profissão como donos de serraria.
              O início da ascensão econômica da família ocorre com a compra de uma carroça com terno de mulas usadas para o transporte de toras e madeira.
              O que somos hoje devemos um pouquinho a Giovanni e Giovanna Crestani, esse grande casal que nos lega entre outros valores: fé, trabalho, perseverança e cidadania. Com força, determinação e coragem eles trabalharam... construíram ...semearam e colheram. Seus frutos unem aqui cinco gerações.


3 - Histórico de Pedro e Francisca Magagnini Crestani

              Pedro Crestani, o mais velho dos filhos de Giovanni e Giovanna Crestani, nasceu no dia 5 de abril de 1887 em Bento Gonçalves. Ela, Francisca Magagnini, nasceu no dia 4 de novembro de 1885, filha de Giovanni e Maria Magagnini. Casaram-se no dia 22 de outubro de 1908 e residiam na época em Linha Sertorina, município de Bento Gonçalves. Tiveram 14 filhos, dois faleceram ainda bebês, e os demais constituíram as seguintes famílias.
- Arciso Crestani e Cecília Bozza Crestani – 8 filhos.
- João Crestani Netto e Fiorina Fiorese Crestani – 11 filhos.
- Erlindo João Crestani e Ermínia Gasperin Crestani – 4 filhos.
- Luis Crestani Sobrinho e Carmelina Catharina D. Viero Crestani – 6 filhos.
- Maria Mathilde Crestani e Ângelo Borsotto – 8 filhos
- Egídio Crestani – falecido com 9 meses.
- Ledovino Crestani e Ângela Leonora Batistella Crestani - 7 filhos.
- Nair Crestani – falecida com 14 meses.
- Nair Albina Crestani e Marcelo Antonio Damiani – 5 filhos.
- Égide Clotilde Crestani e Octavio Marcolino Guareschi – 9 filhos.
- Odila Crestani e Laurindo Manfrin – 2 filhos.
- Tereza Teolinda Crestani e Balduino Cavalet – 4 filhos.
- Vilma Crestani e Otimar Dal Lago – 3 filhos.
- Alcídio Crestani e Idalina Basso Crestani - 4 filhos.
              Em Tapera, Pedro Crestani, junto com seus irmãos mais velhos, seguiu a mesma profissão do pai Giovanni como dono de serraria. Pedro e seus filhos Arciso, Erlindo, João, Luís e Ledovino trabalharam com serraria em Linha Colorado e Selbac. Arciso era o gerente.
              Giovanni Crestani faleceu no dia 18 de dezembro de 1940 com 76 anos vítima de gangrena renil e seu filho Pedro Crestani faleceu no dia 20 de agosto de 1942, vítima de uremia.
              Diante dessa realidade, feito inventários à história toma novos rumos.
              Em 1944, Arciso Crestani e seu tio Vitor Crestani (Vitório) viajaram para Farrapos, na época 5º distrito de Clemente Argolo com o objetivo de comprar terra coberta de pinhais. Negociaram com Osório Siqueira 17,5 colônias de terra (425 he) que custaram 250 contos de réis.
              De volta para Tapera começaram a organizar a mudança para a nova propriedade. Parte da serraria que possuíam em Selbac que era administrada por Arciso Crestani e seus irmãos mais velhos foi transferida para Farrapos.
              Um caminhão de reboque “Internacional D-30” foi o meio de transporte utilizado para deslocar as famílias, máquinas e alguns de seus pertences. Entre crianças e adultos somavam 21 pessoas. Vieram as seguintes famílias:
- Arciso Crestani: veio sozinho, sua esposa Cecília Bozza Crestani e filhos vieram meses mais tarde.
- Arlindo Crestani e Hermínia Gasperin Crestani e filhos.
- João Crestani e Fiorina Fiorese Crestani e filhos.
- Ledovino Crestani e Ângela Leonora Batistela Crestani e filhos.
              Para chegar até a sua propriedade tiveram que abrir a estrada com machado, foice e picão, sem falar do terreno inclinado às margens do rio Forquilha que em determinado percurso conhecido como “perau” obrigou-os a amarrar cordas no caminhão e suspendê-lo, pois ameaçava tombar.
              A casa onde moraram os primeiros tempos era a mesma da família Siqueira. Era rústica feita de tábuas lascadas e muito pequena para abrigar a todos. Construíram uma casa maior, ainda rústica, que mais parecia um galpão, mas que acomodou-os melhor. A varanda dessa casa servia como estrebaria dos bois que formavam a fieira para puxar as toras.
              A serraria foi montada por Marcelo Damiani dando início a principal atividade da família que era o corte, beneficiamento e comercio de madeira. A firma denominava-se: Arciso Crestani e Irmãos.
              Paralelamente ao trabalho da serraria foram construindo casas com sobrado, cobertos de tabuinhas de pinheiro lascado, para cada família. Veio morar em Farrapos a mãe Francisca e seus filhos mais novos: Alcídio, Vilma e Tereza (Tia Nene) e assim foi se formando um pequeno vilarejo em torno da serraria que ficou conhecido como “Os Crestani”.
              Como não havia escola pública nas proximidades, os pais, preocupados com a educação dos filhos, contrataram uma professora particular. Olga Dal Lago com apenas 17 anos, reunia as crianças ao redor da mesa da sala na casa de Erlindo e Hermínia Crestani e ensina-lhes a ler, escrever e calcular. A professora Olga morou aproximadamente dois anos com a bisavó Francisca até ela se mudar para Sananduva, depois morou na casa de Arciso e Cecília Crestani.
              A professora Olga conta que foi Arciso Crestani quem comprou o primeiro rádio e que as crianças e jovens reuniam-se aos sábados à tarde para ouvir as “Dedicatórias” (programa que oferecia músicas). E que todos se divertiam, dançavam e comiam pipoca, pinhão e quentão, feitos pela tia Cecília de quem ela falou com muito carinho.
              A serraria continuou administrada por Arciso Crestani até o seu trágico falecimento em 05 de janeiro de 1948. Diante desse fato veio de Tapera Luis Crestani Sobrinho e sua esposa Carmelita Viero Crestani com seus 4 filhos. Fixaram residência em Sananduva, na Av. Salzano da Cunha – 1171, onde Luis montou um escritório e com apenas o 3º ano colegial passou a administrar a firma. Alguns livros guardados pela família mostram a organização das contas onde tudo era registrado com detalhes. Folhando e lendo estes livros encontrei alguns registros curiosos:
* “Despesa um dia que foram tocar o gado” p.31 – dez / 1944.
* “Despesa hotel trato para o cavalo” p.32 – fev / 1945.
* “Imposto da carreta” p. 33 – mar /1945.
* “90 litros de gasolina para a Diocese” p.37 – out / 1945.
* “Gorjeta” p.38 – nov / 45.
* “2 camisas e 2 gravatas” p.38 – nov / 45.
* “Gratificação aos trabalhadores” p. 46 – dez / 45.
* “Uma carrada de abóbora” p.41 – mar / 46.
              A rotina de trabalho era intensa e exigia disposição e dedicação... Acordar cedo... Derrubar pinheiros... Puxar as toras... Serrar... Empilhar... Carregar o caminhão...Viajar... Trabalhar na lavoura... Cuidar dos animais...E as mulheres? Cuidar dos filhos... Tirar leite... Fazer queijo... Cuidar da horta... Varal cheio de roupas... As fornadas de pão... E aquele almoço gostoso para as numerosas famílias.
              Começaram a se formar as lideranças e diretorias na comunidade que reivindicaram uma escola pública. Cada família doou um pinheiro e a serraria beneficiou a madeira e assim foi construída a primeira escola onde estudavam todas as crianças. Foram os primeiros professores: Vilma, Rosimbo, Armiria (D. Guia), entre outros.
              No início as missas eram rezadas na serraria ou nas casas das famílias. Os Crestani construíram a primeira Igreja era pequena e ficava perto da escola. Segundo a tia Zélia Crestani a firma doou a imagem de Nossa Senhora da Salete, pois a família era devota dessa santa; A tia Hermínia doou a imagem de São Judas Tadeu e a Carmelita a imagem de Santo Antônio.
              O tempo passou. As crianças cresceram...Novos Tempos...
Nos finais de semana se reuniam na Igreja para rezar o terço, depois ficavam conversando, os mais velhos jogavam quatrilho ou bocha e os rapazes jogavam futebol. Até formaram um time onde nove jogadores eram Crestani.
              Faziam filó para rezar o terço que era acompanhado pela capelinha. Algumas vezes planejam surpresas com brodo nos aniversários. Os bailes eram raros e feitos nas casas das famílias ou ao ar livre nos finais de semana. Todos se divertiam e ninguém reclamavam da música ruim. Todo final de ano a firma organiza um churrasco de confraternização que reunia empregados, familiares e convidados. Nessa festa tocavam gaita, violão, dançavam e cantavam músicas italianas relembrando as suas origens.
              Com o passar do tempo a paisagem dos pinheiros foi dando lugar às plantações e criações.
              A sociedade foi desfeita em 1969 e os 5.500 pinheiros restantes foram vendidos para Rui Boaretto, o qual tinha serraria em Lagoa Vermelha. Hoje somente residem em Farrapos alguns filhos de João Crestani.
              Atualmente temos descendentes (bisnetos e tataranetos) de Pedro e Francisca Crestani atuando nas mais diversas profissões: professor, farmacêutico, agrônomo, veterinário, agricultor, empresário, fisioterapeuta, dentista, advogado, jornalista, bancário, entre outros. Com isso demonstra-se que a base familiar serve de espelho durante a vida profissional, pois sabendo de onde vêem os frutos corre-se atrás dos meios para alcançá-los. E todos têm capacidade e condições de construir sua própria carreira profissional e pessoal basta almejar e construir a sua história, mas com certeza os antepassados não devem deixar de servir de exemplo de conduta.
              Nestes anos de fé, trabalho, perseverança e cidadania muitas sementes foram espalhadas, muitos frutos colhidos e outros ainda iremos colher graças a esse exemplo de vida que nos foi deixado.
              Com os objetivos de homenagear os antepassados, resgatar as origens e confraternizar com os descendentes é que foi pensado na realização dos encontros da “Família Crestani”. O 1º Encontro, ocorrido em 2005, foi uma iniciativa da família Crestani residente em Lagoa Vermelha, com o objetivo de reunir os familiares. Dois anos depois em Tapera houve o 2º Encontro onde além da confraternização merece destaque o importante estudo realizado para resgatar a origem da família.
              Agradeço a todos que contribuíram com seus depoimentos para que o histórico dos bisavós Pedro e Francisca fosse escrito e deixo um desafio para que no futuro ele possa ser complementado e corrigido se houve falhas.


Profª. Cleusa Crestani Biolchi
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